terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Vida Consagrada: Religiosos ajudam a compreender «momento grave da história», afirma bispo do Funchal


Testemunho da fé deve ser feito «não só junto dos que a professam e vivem, mas sobretudo dos que dela se afastaram»

Funchal, Madeira, 04 fev 2013 (Ecclesia) – O bispo do Funchal afirmou esta sábado, na sé da cidade, que os religiosos consagrados a Deus “podem oferecer a novidade da compreensão” do “momento grave da história” vivido por um mundo marcado pela “cultura utilitarista”.
Na missa do Dia do Consagrado, que a Igreja Católica assinalou a 2 de fevereiro, D. António Carrilho sublinhou, na homilia publicada pelo site da diocese madeirense, que os religiosos são chamados a “testemunhar com alegria a sua fé, não só junto dos que a professam e vivem, mas sobretudo dos que dela se afastaram”.
“Os novos cenários sociais, culturais, económicos, políticos e até religiosos pedem-nos algo de novo: viver de forma autêntica a nossa experiência comunitária de fé e o anúncio de uma nova Evangelização”, frisou.
Na missa que começou com uma procissão de velas, característica da festa da Apresentação de Jesus no templo de Jerusalém, que se assinala na mesma data, o bispo salientou que os consagrados devem ser “luz” para toda a sociedade.
Os consagrados são chamados a privilegiar os “mais pequenos e esquecidos, vivendo o risco da insegurança e testemunhando a alegria da fé, na simplicidade de uma vida evangélica”, apontou.
O prelado realçou o “precioso contributo da vida consagrada, nas suas diversas formas e na variedade dos seus carismas, na tarefa evangelizadora da Igreja, no encontro de culturas e de comunhão entre os povos, tanto no passado como no presente”.
“Pensando na Igreja Diocesana do Funchal, muitos são os Institutos que a enriquecem, ao longo dos quase 500 anos da sua existência, produzindo belos frutos de fé e boas obras”, acrescentou.
D. António Carrilho pediu aos “jovens, rapazes e raparigas” para não terem “medo” de responder “com um ‘sim’ generoso” “ao chamamento” que Deus lhes faz para a vida religiosa.
“Procurai conhecer Jesus mais de perto e as diversas formas de O seguir, satisfazendo o vosso desejo de felicidade e contribuindo, generosamente, para o serviço e felicidade dos outros”, apelou.
RJM

Agencia Ecclesia

Bispo propõe estudo dirigido e tira dúvidas sobre o Catecismo

Canção Nova Notícias


Arquidiocese de São Paulo
Dom Julio Endi Akamine é bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e vigário da Região Episcopal Lapa
Estudar o Catecismo da Igreja Católica é um dos principais convites que o Ano da Fé, proclamado pelo Papa Bento XVI emoutubro do ano passado, faz aos católicos. Além das iniciativas promovidas pelas paróquias, comunidades eclesiais e movimentos, há ainda a alternativa de se conhecer melhor a fé utilizando os meios virtuais. 
Na tentativa de oferecer aos fiéis um reforço nos estudos da doutrina católica, o bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, Dom Julio Endi Akamine, elaborou um estudo dirigido sobre Catecismo da Igreja como forma de incentivo aos católicos da Arquidiocese de São Paulo e demais interessados.
Dom Julio explica que a idéia sobre o estudo surgiu em uma reunião dos bispos da arquidiocese, a partir da necessidade que os fiéis têm de compreender a fé católica para, então, se posicionarem ante as realidades do mundo contemporâneo.
“Se no passado, o incrédulo e o ateu eram vistos com estranheza e deviam, a todo o momento, se justificar perante a maioria, atualmente são os cristãos e os católicos que devem “se explicar”: por que cremos, em que nós cremos? Tal exigência não é necessariamente negativa. Pelo contrário, nos obriga a um conhecimento mais profundo dos conteúdos de nossa fé, a uma entrega mais confiante a Deus Trindade, a uma vida mais coerente com aquilo que professamos. Em poucas palavras, obriga-nos a ter mais fé”, explicou o bispo.
A metodologia utilizada na formulação do estudo foi a seguinte: a primeira parte do Catecismo (parágrafos 26-1065) seria estudada em aproximadamente 60 etapas. Sendo estabelecido que o esquema do subsídio seria em três partes - 1. Introdução; 2. Texto do Catecismo; 3. Comentário de orientação.
Mas, Dom Julio ressalta que o objetivo principal não é o estudo dos comentários, mas sim dos textos próprios do Catecismo. Isso por que "quanto mais o estudamos mais riqueza podemos tirar dele, mais temas podem ser aprofundados, mais desenvolvimentos são abertos. O Catecismo não interrompe a reflexão, antes o incentiva fornecendo as bases seguras da fé da Igreja”, afirmou.
As vantagens do estudo dirigido do Catecismo
Segundo Dom Julio, o subsídio serve como um mapa que normalmente pode ser consultado para fazer uma viagem rumo a um novo lugar. "Evidentemente, o mapa não substitui a viagem: de nada adiantaria ter um excelente mapa, cheio de informações precisas, de ilustrações e de detalhes minuciosos, se você não se decidir a empreendê-la".  

Logo, a viagem a ser feita é o estudo pessoal do Catecismo e o mapa são a "introdução" e a "revisão dos temas", disse o bispo. Para ele, as vantagens do estudo dirigido se resumem na organização do conteúdo em unidades menores, no contato direto com o texto e na proposta de aprofundamentos posteriores.

Dicas práticas 

Dom Julio apontou algumas dicas àqueles que desejam fazer uso deste material no processo de estudo da Fé. 
Por primeiro, o bispo indica, antes de tudo, um contato direto com o livro do Catecismo da Igreja Católica e utilizar o estudo dirigido como complemento. “Acho que cada um deve se preocupar primeiramente em ter contato direto com o Catecismo. Se os comentários ajudarem a um contato mais frutuoso fico contente, mas se os comentários só atrapalham ignore-os e fique com o Catecismo.”
Para eventuais dúvidas, a sugestão de Dom Julio é buscar auxílio de pessoas mais adiantadas no estudo da doutrina, como um sacerdote, por exemplo. Como outro recurso, o bispo sugere que as dúvidas ocorridas sejam enviadas para sua conta no Facebook que servirá de fórum virtual para discussão e diálogo.
Outra dica fundamental é a perseverança. “Mesmo que nem tudo seja claro, não desanime: muitas coisas precisamos guardar no coração para meditá-las. Mas chegará o momento da graça em que uma inteligência mais profunda nos é dada. A síntese não é resultado da dedução nem da indução, mas da intuição. A intuição não é, porém, algo gratuito e fortuito; ela amadurece com o esforço e a perseverança.” 
Ao estudar o Catecismo, explica Dom Julio, temos que nos dar conta que estamos diante do mistério. “Por isso, além do esforço intelectual, do debate, da discussão, é preciso também silêncio e oração.” 
O Papa Bento XVI indulgenciou o ato de estudar o Catecismo da Igreja Católica durante o Ano da Fé. Para obter a indulgência, o fiel, além de estudar o catecismo, deve receber o Sacramento da Reconciliação (confissão), comungar e rezar pelo Santo Padre.

Mais de 100 bispos se reúnem para a 22ª Edição do Curso dos Bispos, no Rio de Janeiro (RJ)

POR: CNBB/ARQUIDIOCESE DO RIO DE JANEIRO

curso_dos_bispos_04.02.13Teve início nesta segunda-feira, 4 de fevereiro, a 22ª Edição do Curso dos Bispos, tradicional encontro, promovido pela arquidiocese do Rio de Janeiro que será realizado no  Centro de Estudos e Formação do Sumaré, no Rio Comprido. Dando continuidade às abordagens de 2011 e 2012, o evento terá como tema principal os "Cinquenta anos após o Concílio Vaticano II - Liturgia, Missões e Leigos". Mais de cem bispos de todo o Brasil já estão inscritos.
O curso foi organizado pela primeira vez em 1990 pelo então arcebispo, cardeal Eugenio Sales, como uma forma de proporcionar uma oportunidade de partilha e convivência.
O arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta, explicou que “a arquidiocese do Rio tem uma tradição, que vem desde a época do cardeal Eugenio Sales, de proporcionar no período de férias do início do ano um encontro para bispos, onde eles participam de conferências, recebem orientações, podem partilhar a vida e desfrutar de períodos de convivência, especialmente durante as visitas a diversos pontos da cidade. Percebemos que, cada vez mais, esse evento tem sido procurado e apreciado”, avaliou.
Entre os palestrantes, estão: o presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, cardeal Stanislaw Rylko; o prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, cardeal Antônio Cañizares; dom Antônio Staglianò, bispo de Noto (Itália) e colaborador de dom Rino Fisichella (presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização); e Ana Cristina Villa Betancourt, membro do Pontifício Conselho para os Leigos, responsável pela seção dedicada à mulher.
Durante o curso, será realizada visita a local específico da cidade do Rio de Janeiro. O bispo auxiliar emérito da arquidiocese do Rio de Janeiro, dom Karl Josef Romer, acredita que o curso trará um novo entusiasmo para os mais de cem bispos inscritos, lembrando que o primeiro grande professor foi o então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI.
“O curso para bispos, organizado pela arquidiocese do Rio de Janeiro e oferecido fraternalmente a todos os bispos do Brasil, teve como primeiro grande professor o, então Cardeal, Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI (...) Penso que os bispos esperam com muita alegria, aliás, já temos mais de cem inscrições para este curso, e temos a imensa esperança que vai ser um grande sucesso para o bem dos bispos e para o bem das dioceses, que receberão de volta os bispos com novo entusiasmo e com nova clareza”, afirmou dom Romer.

domingo, 3 de fevereiro de 2013


“Rezemos mais pela juventude que Deus nos confia para amar e servir!”

POR: CNBB

dom_Eduardo_Pinheiro
Caros irmãos Párocos e Administradores Paroquiais,
Vigários Paroquiais e demais Presbíteros
“Eis-me aqui, envia-me! (Is 6,8)”
Emocionados e abalados pelo trágico acontecimento em Santa Maria, nos perguntamos, também, se, realmente, nossas estruturas e instituições, eclesiais ou sociais, têm garantido condições suficientes de vida digna e propostas pedagógico-pastorais a favor da vida dos nossos jovens. A celebração da CF 2013, que estamos para iniciar, quer ser uma rica oportunidade para discutirmos este assunto e encontrarmos novos caminhos. Justamente no Jubileu de Ouro da existência da CF em nossa Igreja e após 20 anos da primeira CF sobre juventude (1992) voltamos a proclamar a todos esta prioridade em nossa dinâmica de evangelização.
Em sua missão de educadora e canal da Graça divina, a Igreja quer dar novo significado a sua presença no meio das novas gerações, considerando sua realidade e favorecendo reflexões, projetos e mecanismos que contribuam com sua vida e participação na construção do Reino. Portanto, não vamos reduzir a CF a encontros e palestras “para” jovens, nem a cartazes fixados nas paredes, hino cantado nas missas, coleta feita no último domingo da Quaresma! Isto tudo é muito importante, mas não basta! Provoquemos ocasiões qualificadas de estudo deste bonito e desafiador tema! Façamos o exercício de escutar os jovens e a sua realidade, apresentada por eles mesmos! Debrucemo-nos em nossos projetos pastorais, organizações e estruturas eclesiais em vista de mudanças a partir dos jovens!
A CF 2013 tem um objetivo claro: “acolher os jovens no contexto de mudança de época, propiciando caminhos para seu protagonismo no seguimento de Jesus Cristo, na vivência eclesial e na construção de uma sociedade fraterna fundamentada na cultura da vida, da justiça e da paz” (CF 2013, n.4). Na evangelização da juventude, precisamos sempre adequar os espaços juvenis; qualificar nossa proposta formativo-evangelizadora (catequese, encontros, retiros, palestras, celebrações, subsídios, reuniões), cuidar da escolha e capacitação dos responsáveis diretos pela evangelização da juventude. Aproveitemos deste clima favorável da CF 2013!
A jovialidade da nossa Igreja passa pelo reconhecimento do valor e do significado que têm as novas gerações para os tempos atuais. A perene novidade, que vem de Deus e é condição imprescindível para o desenvolvimento da História da Salvação, encontra nos jovens a sua expressão, o seu olhar, o seu ardor, a sua voz ... o seu coração. Deus tem sempre “novidades” para nós e quis contar com os jovens para que pudéssemos conhecer e experimentar aquilo tudo que preenche a existência e alegra o espírito!
Rezemos mais pela juventude que Deus nos confia para amar e servir! E rezemos “com” ela! Nosso testemunho contribuirá com sua convicção de que sem uma forte espiritualidade não se pode experimentar toda a beleza da vida nem entender todo o seu valor. Continuemos rezando por aqueles jovens, familiares e amigos que vivenciaram o drama de Santa Maria e por tantos outros espalhados pelo país vitimados por inúmeras formas de violência. Unamos nossas preces a favor do Filipe, um jovem engajado na diocese de Ponta Grossa e responsável pela arrecadação de recursos para participação e sua comunidade na JMJ. Nesse final de semana pude visitá-lo na Santa Casa, onde está internado vítima de assalto e vem testemunhando fé e paciência no aguardo de sua saúde completa. Prometi a ele que pediria aos senhores e aos seus jovens uma corrente de oração pelo sucesso do tratamento e procedimentos.
A maternidade de Maria nos eduque na sensibilidade diante do sofrimento de nossos jovens e nos conceda administrar nossos esforços e organizações a favor de sua vida. Que o seu colo refaça nossas energias e nos anime na continuidade de nosso pastoreio no meio dos jovens.
Dom Eduardo Pinheiro da Silva
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da CNBB

Papa: "Unir fé e caridade para evitar genérico humanitarismo"


Cidade do Vaticano (RV) - Foi publicada nesta sexta-feira a mensagem do Papa para a Quaresma 2013 sobre o tema "Crer na caridade suscita caridade". «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16). 

O documento convida a refletir sobre a ligação entre fé e caridade. "Nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade", ressalta Bento XVI no documento. 

O Santo Padre destaca ainda que "estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma dialética". 

"Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o caráter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o ativismo moralista", sublinha ainda Bento XVI.

Segundo o pontífice, "na Igreja, devem coexistir e integrar-se contemplação e ação, de certa forma simbolizadas nas figuras evangélicas das irmãs Maria e Marta. A prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira partilha evangélica deve radicar-se na fé". 

"De fato, por vezes tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou à mera ajuda humanitária. É importante recordar, ao invés, que a maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja, o serviço da Palavra", destaca ainda o Papa.

A seguir, a mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2013, na íntegra. (MJ)


Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Quaresma de 2013

Crer na caridade suscita caridade
«Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16)


Queridos irmãos e irmãs!

A celebração da Quaresma, no contexto do Ano da fé, proporciona-nos uma preciosa ocasião para meditar sobre a relação entre fé e caridade: entre o crer em Deus, no Deus de Jesus Cristo, e o amor, que é fruto da acção do Espírito Santo e nos guia por um caminho de dedicação a Deus e aos outros.


1. A fé como resposta ao amor de Deus

Na minha primeira Encíclica, deixei já alguns elementos que permitem individuar a estreita ligação entre estas duas virtudes teologais: a fé e a caridade. Partindo duma afirmação fundamental do apóstolo João: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4, 16), recordava que, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus caritas est, 1). A fé constitui aquela adesão pessoal - que engloba todas as nossas faculdades - à revelação do amor gratuito e «apaixonado» que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. O encontro com Deus Amor envolve não só o coração, mas também o intelecto: «O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d’Ele une intelecto, vontade e sentimento no acto globalizante do amor. Mas isto é um processo que permanece continuamente a caminho: o amor nunca está "concluído" e completado» (ibid., 17). Daqui deriva, para todos os cristãos e em particular para os «agentes da caridade», a necessidade da fé, daquele «encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu íntimo ao outro, de tal modo que, para eles, o amor do próximo já não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor» (ibid., 31). O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor - «caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14) - , está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo (cf. ibid., 33). Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de ser amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus.

«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! (...) A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única - que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir» (ibid., 39). Tudo isto nos faz compreender como o procedimento principal que distingue os cristãos é precisamente «o amor fundado sobre a fé e por ela plasmado» (ibid., 7).

2. A caridade como vida na fé

Toda a vida cristã consiste em responder ao amor de Deus. A primeira resposta é precisamente a fé como acolhimento, cheio de admiração e gratidão, de uma iniciativa divina inaudita que nos precede e solicita; e o «sim» da fé assinala o início de uma luminosa história de amizade com o Senhor, que enche e dá sentido pleno a toda a nossa vida. Mas Deus não se contenta com o nosso acolhimento do seu amor gratuito; não Se limita a amar-nos, mas quer atrair-nos a Si, transformar-nos de modo tão profundo que nos leve a dizer, como São Paulo: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim (cf. Gl 2, 20).

Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n'Ele e como Ele; só então a nossa fé se torna verdadeiramente uma «fé que actua pelo amor» (Gl 5, 6) e Ele vem habitar em nós (cf. 1 Jo 4, 12).

A fé é conhecer a verdade e aderir a ela (cf. 1 Tm 2, 4); a caridade é «caminhar» na verdade (cf. Ef 4, 15). Pela fé, entra-se na amizade com o Senhor; pela caridade, vive-se e cultiva-se esta amizade (cf. Jo 15, 14-15). A fé faz-nos acolher o mandamento do nosso Mestre e Senhor; a caridade dá-nos a felicidade de pô-lo em prática (cf. Jo 13, 13-17). Na fé, somos gerados como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12-13); a caridade faz-nos perseverar na filiação divina de modo concreto, produzindo o fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22). A fé faz-nos reconhecer os dons que o Deus bom e generoso nos confia; a caridade fá-los frutificar (cf. Mt 25, 14-30).

3. O entrelaçamento indissolúvel de fé e caridade 

À luz de quanto foi dito, torna-se claro que nunca podemos separar e menos ainda contrapor fé e caridade. Estas duas virtudes teologais estão intimamente unidas, e seria errado ver entre elas um contraste ou uma «dialéctica». Na realidade, se, por um lado, é redutiva a posição de quem acentua de tal maneira o carácter prioritário e decisivo da fé que acaba por subestimar ou quase desprezar as obras concretas da caridade reduzindo-a a um genérico humanitarismo, por outro é igualmente redutivo defender uma exagerada supremacia da caridade e sua operatividade, pensando que as obras substituem a fé. Para uma vida espiritual sã, é necessário evitar tanto o fideísmo como o activismo moralista. 

A existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos como o zelo dos Apóstolos pelo anúncio do Evangelho, que suscita a fé, está estreitamente ligado com a amorosa solicitude pelo serviço dos pobres (cf. At 6, 1-4). Na Igreja, devem coexistir e integrar-se contemplação e acção, de certa forma simbolizadas nas figuras evangélicas das irmãs Maria e Marta (cf. Lc 10, 38-42). A prioridade cabe sempre à relação com Deus, e a verdadeira partilha evangélica deve radicar-se na fé (cf. Catequese na Audiência geral de 25 de Abril de 2012). De facto, por vezes tende-se a circunscrever a palavra «caridade» à solidariedade ou à mera ajuda humanitária; é importante recordar, ao invés, que a maior obra de caridade é precisamente a evangelização, ou seja, o «serviço da Palavra». Não há acção mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana. Como escreveu o Servo de Deus Papa Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio, o anúncio de Cristo é o primeiro e principal factor de desenvolvimento (cf. n. 16). A verdade primordial do amor de Deus por nós, vivida e anunciada, é que abre a nossa existência ao acolhimento deste amor e torna possível o desenvolvimento integral da humanidade e de cada homem (cf. Enc. Caritas in veritate, 8).

Essencialmente, tudo parte do Amor e tende para o Amor. O amor gratuito de Deus é-nos dado a conhecer por meio do anúncio do Evangelho. Se o acolhermos com fé, recebemos aquele primeiro e indispensável contacto com o divino que é capaz de nos fazer «enamorar do Amor», para depois habitar e crescer neste Amor e comunicá-lo com alegria aos outros.

A propósito da relação entre fé e obras de caridade, há um texto na Carta de São Paulo aos Efésios que a resume talvez do melhor modo: «É pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque nós fomos feitos por Ele, criados em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas acções que Deus de antemão preparou para nelas caminharmos» (2, 8-10). Daqui se deduz que toda a iniciativa salvífica vem de Deus, da sua graça, do seu perdão acolhido na fé; mas tal iniciativa, longe de limitar a nossa liberdade e responsabilidade, torna-as mais autênticas e orienta-as para as obras da caridade. Estas não são fruto principalmente do esforço humano, de que vangloriar-se, mas nascem da própria fé, brotam da graça que Deus oferece em abundância. Uma fé sem obras é como uma árvore sem frutos: estas duas virtudes implicam-se mutuamente. A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola.

4. Prioridade da fé, primazia da caridade

Como todo o dom de Deus, a fé e a caridade remetem para a acção do mesmo e único Espírito Santo (cf. 1 Cor 13), aquele Espírito que em nós clama:«Abbá! – Pai!» (Gl 4, 6), e que nos faz dizer: «Jesus é Senhor!» (1 Cor 12, 3) e «Maranatha! – Vem, Senhor!» (1 Cor 16, 22; Ap 22, 20).

Enquanto dom e resposta, a fé faz-nos conhecer a verdade de Cristo como Amor encarnado e crucificado, adesão plena e perfeita à vontade do Pai e infinita misericórdia divina para com o próximo; a fé radica no coração e na mente a firme convicção de que precisamente este Amor é a única realidade vitoriosa sobre o mal e a morte. A fé convida-nos a olhar o futuro com a virtude da esperança, na expectativa confiante de que a vitória do amor de Cristo chegue à sua plenitude. Por sua vez, a caridade faz-nos entrar no amor de Deus manifestado em Cristo, faz-nos aderir de modo pessoal e existencial à doação total e sem reservas de Jesus ao Pai e aos irmãos. Infundindo em nós a caridade, o Espírito Santo torna-nos participantes da dedicação própria de Jesus: filial em relação a Deus e fraterna em relação a cada ser humano (cf. Rm 5, 5).

A relação entre estas duas virtudes é análoga à que existe entre dois sacramentos fundamentais da Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. O Baptismo (sacramentum fidei) precede a Eucaristia (sacramentum caritatis), mas está orientado para ela, que constitui a plenitude do caminho cristão. De maneira análoga, a fé precede a caridade, mas só se revela genuína se for coroada por ela. Tudo inicia do acolhimento humilde da fé («saber-se amado por Deus»), mas deve chegar à verdade da caridade («saber amar a Deus e ao próximo»), que permanece para sempre, como coroamento de todas as virtudes (cf. 1 Cor 13, 13).

Caríssimos irmãos e irmãs, neste tempo de Quaresma, em que nos preparamos para celebrar o evento da Cruz e da Ressurreição, no qual o Amor de Deus redimiu o mundo e iluminou a história, desejo a todos vós que vivais este tempo precioso reavivando a fé em Jesus Cristo, para entrar no seu próprio circuito de amor ao Pai e a cada irmão e irmã que encontramos na nossa vida. Por isto elevo a minha oração a Deus, enquanto invoco sobre cada um e sobre cada comunidade a Bênção do Senhor!


Vaticano, 15 de Outubro de 2012

[Benedictus PP. XVI]

Rádio Vaticano