segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Deus santo nos faz santos

Apocalipse 7,2-4.9-14; Salmo 23; 1 João 3,1-3; Mateus 5, 1-12

Por que é necessário celebrar a festa de todos os santos? O ano inteiro estamos celebrando algum santo: São Tomás de Aquino, 28 de janeiro; Agostinho, 28 de agosto; Teresa de Lisieux, 01 de outubro etc. Por que, então, é necessário separar um dia para celebrar a festa de todos os santos? Porque existem duas razões importantes:

Primeiro, ao lado de tantos santos reconhecidos publicamente pela Igreja, cuja festa celebramos em seus dias específicos, há inúmeros outros santos e mártires, homens, mulheres e crianças, cujos nomes só Deus conhece e estão unidos com Ele na glória celeste. Muitos destes seriam nossos próprios pais e avós que foram mulheres heróicas e homens de fé. Hoje mantemos sua memória honrada. De muitas maneiras, portanto, a festa de hoje atinge todos os filhos e filhas de Deus. O livro do Apocalipse de São João nos revela algo sobre os que vão serão glorificados: “Vi multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão” (Ap 7,9).

Vejam meus irmãos, quem pode ser santo? A todos é oferecida a oportunidade, ninguém fica de fora, anotem o que disse o texto: “Uma multidão [...] de todas as nações”. Só Deus é Santo, mas Ele derrama-se sobre nós e nos santifica através do seu Espírito. Nele podemos ser santos quando experimentamos a vida de Deus e isso se expressa em nosso comportamento, passamos a viver com um comportamento que corresponde a tal santidade.

Em segundo lugar, outra razão para celebrarmos este dia é que podemos nos voltar para aquilo ao qual estamos todos destinados, à eternidade, à imortalidade. Os santos que celebramos eram homens e mulheres como nós. Onde estamos agora eles já estiveram, onde eles estão nós também iremos. Como cristãos, sabemos que a história de uma pessoa, a vida, não se limita ao que acontece com ela, entre o dia que nasceu e o dia que morrer. Nossa história começa antes de nascermos, na nossa concepção, e vai, além do dia em que morremos, para toda a eternidade. É por isso que nós simplesmente não conseguimos esquecer as pessoas depois que morrem. Por isso dizia Santa Teresa de Lisieux que iria passar a eternidade fazendo o bem sobre a terra. Aos nossos olhos mortais ela está morta e se foi. Mas aos olhos da fé, sabemos que ela está viva, mais do que nunca, porque ela agora está completamente viva em Deus. Ela agora está mais viva do que somos, porque a vida que ela goza agora já não pode ser diminuída pela doença, sofrimento, pecado, ou a morte.

Para alcançar a plenitude da vida como os santos, não acontece automaticamente sem nenhum esforço da nossa parte. “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus” (Mt. 7,21). Como podemos viver uma vida que faz a vontade do Pai? A resposta nos é dada no Evangelho de hoje, as bem-aventuranças, quando Jesus dá aos seus seguidores um roteiro para uma eternidade feliz. Todos os santos que celebramos hoje trilharam o caminho difícil e estreito das bem-aventuranças para chegar à felicidade celestial. Na festa de Todos os Santos a Igreja nos convida e desafia-nos à buscar a santidade, vivendo segundo os impulsos do Espírito Santo.

As bem-aventuranças nos propõem um modo de vida, convidando a nos identificar com os pobres, os que choram, os mansos e os que têm fome e sede de justiça. Elas nos desafiam a sermos sensíveis, homens e mulheres que tenham pureza no coração, e tornem-se construtores da paz nas relações uns com os outros, na família e na sociedade, mesmo quando a vivência dessas questões venham a nos expor ao ridículo e a perseguição. Nenhum dos santos que celebramos hoje tinha como objetivo na vida acumular riquezas, adquirir poder ou prestígios pessoais. Muito pelo contrário, olharam para frente para a recompensa eterna que Deus dá aos seus fiéis, ao final desta vida terrena cheia de ilusões.

Hoje somos convidados a percorrer o caminho dos santos, o caminho das bem-aventuranças. O caminho é estreito e cheio de durezas. Precisamos de fé e coragem para caminhar por ele. A fé assegura aos que viveram retamente segundo o espírito das bem-aventuranças, que ao final da vida vamos, juntamente com todos os santos, ouvir as palavras consoladoras do Senhor: “Muito bem, servo bom e fiel [...] vem participar da minha alegria!” (Mt. 25,21).

Por: Pe. Márcio Henrique Mendes Fernandes

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Mensagem do Papa para o Dia de Finados

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Na oração do Angelus, do domingo passado, 30 de outubro, o papa Bento XVI fez uma referência direta à celebração dos fiéis defuntos, que a Igreja realiza nesta quarta-feira, 2 de novembro. O papa convidou os católicos a rezarem por quem já morreu, falando numa "certeza" de vida para lá da morte. "Desde os primeiros tempos da fé cristã, a Igreja terrena - reconhecendo a comunhão de todo o corpo místico de Jesus Cristo - cultivou com grande piedade a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios por eles", disse.

O papa considera que a oração pelos mortos é "não só útil, mas necessária", deixando votos de que "o pranto, devido ao afastamento terreno, não prevaleça sobre a certeza da ressurreição". "Também a visita aos cemitérios, ao mesmo tempo que guarda os laços de afeto com aqueles que nos amaram nesta vida, recorda-nos que todos tendemos para uma outra vida, para lá da morte", observou. "A comemoração dos fiéis defuntos, à qual é dedicada o dia 2 de novembro, ajuda-nos a recordar os nossos entes queridos que nos deixaram e todas as almas a caminho da plenitude da vida, precisamente no horizonte da Igreja celestial, à qual a Solenidade de hoje nos elevou", prosseguiu Bento XVI, perante milhares de pessoas congregadas na Praça de São Pedro.

Aos fiéis de língua espanhola, o papa disse: "Na solenidade de Todos os Santos, a Liturgia nos convida a contemplar o amor infinito de Deus, que se reflete na vitória daqueles que já gozam de sua glória no céu. É o amor do Pai que nos chama a sermos seus filhos, nos entrega sue próprio Filho para redimir-nos com seu sangue purificador. Por isso nos proclama felizes também quando sofremos alguma tribulação, porque nEle depositamos nossa esperança. Respondamos com generosidade e coerência a este dom, que foi derramado em nossos corações, sendo Santos como Deus é Santo, para que também em nós se manifeste sua glória".

Fonte: CNBB

domingo, 30 de outubro de 2011

Para cristão, casamento é um caminho para a santidade

A muitos, o Senhor chama ao matrimônio, no qual um homem e uma mulher formam uma só carne (cf. Gn 3, 24), e, para a Igreja, a santidade deles se realiza numa profunda vida de comunhão.
“É um horizonte de vida ao mesmo tempo luminoso e exigente;um projeto de amor verdadeiro, que se renova e consolida cada dia, partilhando alegrias e dificuldades, e que se caracteriza por uma entrega da totalidade da pessoa”, salientou o Papa Bento XVI em seu discurso para a Vigília de Oração com os Jovens, na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Madri.

Para o Santo Padre, 
reconhecer a beleza e a bondade do matrimônio significa estar consciente de que o âmbito adequado à grandeza e dignidade do amor conjugal só pode ser conquistado através da fidelidade e indissolubilidade e também de abertura ao dom divino da vida.
Viver a fidelidade e estar aberto ao dom dos filhos são alguns dos compromissos assumidos pelos cristãos no Sacramento do Matrimônio. Sobre esses temas onoticias.cancaonova.com falou com a médica especialista em ginecologia e obstetrícia, Elizabeth Kipman Cerqueira, que neste fim de semana participará do 2º Congresso Nacional de Planejamento Familiar, em Brasília.

noticias.cancaonova.com:
 Numa cultura onde o divórcio se tornou algo comum e a fidelidade é vista como algo relativo, qual a importância da entrega total e exclusiva como expressão do amor conjugal?

Dra. Elizabeth: 
É um testemunho da possibilidade de realizar a aspiração que é comum a todos. Embora muitas vezes seja inconsciente, toda pessoa humana traz o desejo do amor, de aceitação e de doação total. Alguém com quem possa partilhar a jornada da vida, construindo e vencendo obstáculos juntos, na confiança recíproca.

Para o cristão, além disso, a opção pela vida conjugal no sacramento é uma resposta a Deus, como é toda resposta vocacional: o seu caminho à santidade. Para ele, é o sacramento de amor, renovado sempre, que expressa o mistério maior, verdadeiro ícone da Trindade. É impossível deixar de ver em cada divórcio, um fracasso na vida de relação e de compromisso.

noticias.cancaonova.com: Todo casal (casado) é chamado a paternidade? Como desenvolver este dom?

Dra. Elizabeth: 
Não só todo casal, mas toda pessoa humana é chamada à paternidade e à maternidade, no sentido mais profundo de gerar vida. E gerar vida quer dizer gerar Deus no mundo. Cada um, conforme seu estado de vida, precisa viver a sexualidade e a fecundidade, para realizar plenamente a sua humanidade.

Para os casais, num compromisso recíproco que inclui o abraço físico, isto significa reconhecer o filho como dom e não como direito - nem para tê-lo a qualquer custo, nem como sua propriedade para eliminá-lo quando indesejável. Para o celibatário, significa viver uma re-significação da sexualidade e da fecundidade consagrada diretamente a Deus.

noticias.cancaonova.com:
 Hoje muitas mulheres deixam de lado a maternidade priorizando a carreira profissional. Diante disso qual a importância da maternidade na realização pessoal e como dom de Deus?
Dra. Elizabeth: A cultura da sociedade influi na imagem de sucesso e de realização pessoal e, sem dúvida, a mulher tem a capacidade e a possibilidade de desenvolver qualquer profissão. O fato de adiar a maternidade tem acontecido, muitas vezes, até que a gravidez se torne algo difícil, até pela própria idade e por outros fatores. É preciso o equilíbrio pessoal e encarar a realidade existencial biológica, psicológica e espiritual e avaliar o que é importante consultando o coração, muito além das circunstâncias superficiais. Este adiamento, inclusive, tem colaborado para maior procura da fecundação in vitro - o bebê de proveta. Por outro lado, é importante lembrar aos casais que, no mútuo acordo, é preciso que o homem assuma a sua parte junto aos filhos para que a mulher continue a sua participação profissional.

noticias.cancaonova.com: 
Infelizmente alguns casais por motivos de saúde não podem ter filhos. Mas eles podem se realizar completamente dentro do casamento? Como?
Dra. Elizabeth: Na vida do casal, todo ato, não somente o ato sexual, deve ser fecundo e todo ato deve gerar vida, a começar, um no outro. A disposição para ser uma casal fecundo deve, portanto, começar pela fecundidade recíproca: ser canal da Graça um para o outro e, como casal, dispor-se a acolher e defender cada vida humana. A vida compartilhada desta forma nunca será estéril nem vazia. Esta é uma exigência inicial para quem se dispõe a receber o dom do filho gerado em suas entranhas ou gerado em seu coração através da adoção.

Fonte: Canção Nova

sábado, 29 de outubro de 2011

CNBB se une ao Papa no encontro de Assis


Os bispos que compõem o Conselho Permanente da CNBB emitiram na tarde desta quarta-feira, 26 de outubro, uma nota oficial de saudação ao Papa Bento XVI pela realização do encontro pela paz com lideranças mundiais de outras igrejas e de outras religiões nesta quinta, 27 de outubro, em Assis, na Itália.
Nós, Bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – reunidos de 25 a 27 de outubro de 2011, nos unimos ao Santo Padre Bento XVI que renova, em Assis, o encontro histórico realizado há 25 anos, pelo Beato João Paulo II, com os irmãos de outras igrejas cristãs e diferentes tradições religiosas do mundo. 

O tema escolhido pelo Papa Bento XVI, “Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz”, sugere que o diálogo e a construção da Paz se fundamentam na busca da Verdade e no respeito às diferenças religiosas.

Seguindo a orientação do Papa, entendemos que o diálogo verdadeiro não se confunde com sincretismo, ou com uma religião global que ignore as várias identidades religiosas e culturais.

No mundo atual, marcado por grande crise econômica e, sobretudo, moral, o Encontro de Assis é, para todos, fonte de esperança, porque reúne pessoas de boa vontade, em diálogo sincero e aberto ao mistério de Deus.

Assim as religiões, rejeitando qualquer forma de discriminação e violência, se apresentam ao mundo como sólido caminho de promoção da dignidade humana.

Manifestamos nossa plena comunhão com o Santo Padre por este encontro e agradecemos pela escolha do tema.

Comprometemo-nos, em nossas dioceses, a desenvolver ações que levem a um renovado diálogo com as demais religiões e com todas as pessoas de boa vontade.

Que o Príncipe da Paz oriente os nossos passos no caminho inspirado por São Francisco de Assis que, neste local, se fez instrumento do Senhor, na busca da Verdade e na construção da Paz.



Fonte: CNBB

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

LITURGIA DA PALAVRA: AUTENTICIDADE DE VIDA E TESTEMUNHO

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

SÃO PAULO, quinta-feira, 27 de outubro de 2011 – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 31° domingo do Tempo Comum – Ml 1,14b-2,1.8-10; 1 Ts 2,7b-9.13; Mt 23, 1-12 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneu Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

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DOMINGO 31 – Comum – A

Autenticidade de vida e testemunho do Evangelho

Leituras: Ml 1,14b-2,1.8-10; 1 Ts 2,7b-9.13; Mt 23, 1-12

“Se eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,14-15). O próprio Jesus se torna sempre a realização encarnada da Palavra que nos entrega. Seu exemplo precede seu ensino, e deste constitui a força interior que lhe dá autoridade e eficácia.

Movido pelo impulso do Espírito e inspirado pelo exemplo de Jesus, Paulo afirma que seu ministério apostólico no meio da comunidade dos tessalonicenses foi exatamente a atuação do exemplo e do mandamento de Mestre: “foi com muita ternura que nos apresentamos a vós, como uma mãe que acalenta seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos, que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida” (1 Ts 2,7b-8). E acrescenta pouco depois “Bem sabeis que exortamos a cada um de vós, como um pai aos filhos” (1 Ts 2, 11).

Não é fácil encontrar hoje em homilias de padres e em cartas pastorais de bispos uma linguagem tão apaixonada e humana, capaz de expressar aquela autêntica experiência da paternidade e da maternidade espiritual na qual a Igreja, através do serviço e da dedicação generosa dos seus ministros, nos gera à vida de Deus na fé, e se torna nossa “mãe”. Quantas vezes estamos proclamando na linguagem eclesiástica corrente do dia-a-dia que a Igreja é nossa mãe!

Quanto da paixão e da ternura da mãe e do empenho generoso e sábio do pai - que o apóstolo reivindica como características do seu serviço ao evangelho para os tessalonicenses - moldam de verdade nossas atitudes pastorais, e alimentam nossa pregação e catequese, enquanto somos chamados a não somente “escutar”, mas “encontrar” a boa nova libertadora de Jesus, que transforma e dá vida?

As duras palavras de Jesus na polêmica contra os fariseus colocam em luz a contradição radical entre palavras e comportamentos, sobretudo nas pessoas que, na comunidade, têm a missão e a tarefa de abrir o caminho aos irmãos e irmãs para encontrar a Deus, o Pai fonte de toda paternidade (cf. Ef 3,15), que cuida, educa e acompanha com ternura de mãe seus filhos amados, até que se tornem adultos (cf. Os 11, 1-4).

Os fariseus e os mestres da lei proporcionam um ensino autorizado do qual é preciso ter conta, enquanto guarda em si a Palavra viva que vem de Deus e que transcende a postura pessoal deles. Seu estilo de vida deveria ser o espelho da mesma palavra e dar a ela credibilidade. Ao invés se torna um tropeço que atrapalha a vida do povo. Distinguir as situações ambíguas, com sabedoria e discernimento crítico no Espírito, como convém a pessoas maduras na fé, e pegar a distância das falsas aparências, para seguir o único verdadeiro Senhor, Pai e Mestre: eis a vocação e o desafio para os verdadeiros discípulos em todo tempo.

“Por isso deveis fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imiteis suas ações! Pois eles falam e não praticam” (Mt 23, 3). Evidenciando uma série de contradições, Jesus destaca dois pecados fundamentais, que constituem o núcleo venenoso da alma, a hipocrisia, isto é, a manipulação da verdade para consigo mesmo, diante de Deus e na relação com os demais.

O primeiro pecado é a tentativa de esconder-se atrás de um aparente zelo religioso, identificado com a rígida observância da Lei, por eles aludida, mas carregada sobre os ombros do povo, observância desprovida de todo amor e autenticidade (Mt 23, 4). O segundo pecado é a procura em chamar a atenção do povo para si mesmo, colocando-se no lugar próprio de Deus, ao ostentar formas e palavras, capazes de capturar os simples, em vez de guiá-los ao Senhor da vida (Mt 23, 5-7).

Jesus se coloca na linha do profeta Malachias, que denuncia a perversão da própria missão por parte dos sacerdotes. Eles deveriam ser de ajuda e servir de guias para viver com fidelidade a aliança; ao contrário: se tornaram “pedra de tropeço” para os pobres (1ª Leitura, Ml 2, 8).

Os pequeninos são os privilegiados do Pai! Por isso a ameaça de Jesus se faz ainda maior daquela já severa que encontramos aqui. “Caso alguém escandalize um destes pequeninos que crêem em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e fosse precipitado nas profundezas do mar!” (Mt 18,6).

O tropeço e o escândalo dos pequeninos não passam somente através dos comportamentos abertamente em contradição com o evangelho e o ensino da Igreja. Quando isso acontece, é mais fácil reconhecer o desvio e se defender. Hoje em dia atuam também duas formas, dentre outras, de possíveis desvios do caminho próprio do discípulo de Jesus.

Todo mundo é alertado contra certa mentalidade secular que descuida de Deus e da dimensão espiritual da existência humana, para seguir um relativismo individualista e limitado ao nível do bem estar material.

Outro perigo mais sutil é a exploração do sentimento religioso espontâneo e simples das pessoas, dobrando-o para formas pobres de conteúdo, fortemente ligadas às emoções, sem o cuidado paterno e materno de Paulo, para educar este mesmo sentimento religioso, e acompanhar os fieis a gozar das riquezas espirituais que a Igreja proporciona para todo o povo na Palavra de Deus, na Liturgia, na formação mais consciente e adulta da própria fé.

Ao pegar nas mãos certas publicações que se dizem de caráter piedoso, e ao olhar certos programas de TV (não somente evangélicos!), que pretenderiam alimentar a fé do povo de Deus, vêm naturalmente à mente as severas palavras de Jesus no evangelho de hoje! Muitas vezes são propostas na realidade formas quase mágicas de piedade, embora os altares apareçam bem arrumados, segundo as exigências das rubricas litúrgicas!

Para onde foi o luminoso empenho da Igreja assumido através do Concílio Vaticano II, orientado a reconduzir a fé e a piedade do povo de Deus às suas divinas raízes da Palavra de Deus e do mistério pascal de Cristo na liturgia, renovando as bases da catequese, para que se tornasse mais idônea a iluminar a mente e a esquentar o coração das pessoas com a caridade de Cristo?

Para onde foi o caminho de comunhão entre todos os membros do povo de Deus, peregrino na esperança rumo à vinda gloriosa do Senhor, que sustenta seu caminho, o ilumina, o faz solidário com todos os homens e mulheres do nosso tempo, e o abre à esperança?

Esta foi a grande estrela polar da eclesiologia promovida pelo Concílio Vaticano II, retomando a mais antiga e original tradição da Igreja.

A Igreja está se preparando a celebrar no ano 2013 os cinqüenta anos da abertura do Concílio ecumênico Vaticano II (1963- 2013). Este aniversário deveria constituir uma oportunidade para todos redescobrirem as grandes Constituições do Concílio (os principais documentos doutrinais e pastorais), e assumir com renovado empenho o caminho de renovação e de autenticidade da vida cristã que o Espírito Santo abriu para a Igreja.

Em qual terreno está caindo, dentro das nossas comunidades, a fecunda semente de vida lançada pelo papa Bento XVI, com a Exortação apostólica “Verbum Domini - A Palavra do Senhor” (2008), que, num gesto de profunda comunhão com os bispos da Igreja católica, assumiu as sugestões do Sínodo dos bispos, para colocar novamente no centro do coração da Igreja e da vida de todos os fieis a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus, Palavra-Verbo do Pai?

Este é o caminho para, no nosso tempo, cultivar e promover uma fé e uma piedade autênticas, capazes de enfrentar os desafios da secularização e do falso “pietismo” de certas propostas religiosas, que podem nascer da boa vontade, mas que não conseguem fundamentar bastante as pessoas diante dos novos desafios.

O Encontro de Reflexão, Diálogo e Oração, promovido pelo papa em Assis no dia 27 de outubro, 25o aniversário do primeiro encontro organizado pelo Bem Aventurado papa João Paulo II (1986), tem como horizonte espiritual o lema “Peregrinos da verdade, peregrinos da paz”. O espírito com que o papa tem promovido este evento e o lema que o identifica destacam bem a exigência de crescer na autenticidade da relação com o mistério de Deus que nos habita e nos transcende, e na relação para com todos os membros da família humana, qualquer que seja a forma religiosa ou cultural, para expressar e honrar este mistério divino. Este encontro do dia 27 é preciso que de algum modo faça parte da celebração da eucaristia deste domingo, como palavra atualizadora do evangelho e da páscoa de Jesus.

Os estudiosos do Novo Testamento nos advertem que o tom altamente polêmico do trecho do evangelho de Mateus proclamado na liturgia deste domingo, se de um lado parece exagerar na leitura negativa do movimento dos fariseus, assim como se exprimia no tempo de Jesus, de outro lado, provavelmente, tende a marcar o perigo da hipocrisia e da modalidade errônea de se exercer a autoridade dentro da própria comunidade cristã no tempo do evangelista.

Tais riscos, seria esta a mensagem do evangelista, não se encontram somente no povo dos judeus, mas também na comunidade dos discípulos de Jesus, na nossa comunidade, em qualquer tempo e lugar.

Para os discípulos, Jesus indica outros critérios de relações recíprocas, e outro modelo para exercitar em maneira autêntica a autoridade: “Quanto a vós, nunca....” (Mt 23,8-12).

Diante da perspectiva da paixão, passagem escolhida pelo Pai para realizar a missão de Jesus como Messias e Salvador, os discípulos não conseguem entender o mistério de Jesus. E, sobretudo, não conseguem entender o que isto deveria significar para eles mesmos, enquanto seus “discípulos”. Continuam brigando entre si, sobre quem deveria ocupar os primeiros postos de poder entre eles.

Jesus revira as perspectivas: “Sabeis que os governadores das nações as dominam... Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser primeiro dentre vós, seja o vosso servo. Desse modo o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate por muitos” (Mt 20, 25-28).

Eis fundada a razão porque ninguém, entre os discípulos, pode pretender o “título” de mestre, de pai, de guia. Estas funções pertencem ao Pai e a seu Filho Jesus, que atua no Espírito Santo (Mt 23, 8-10).

Cristo, que se esvazia de todo poder e de aparência de glória, que lhe pertencem enquanto Verbo do Pai, e assume a fragilidade do escravo, morrendo na cruz, suprema manifestação do seu amor e da sua glória, permanece a fonte e o modelo de toda comunidade cristã, nas relações entre seus membros e no exercício da autoridade (cf Fl 2, 6-11).

Que sentido tem na Igreja as pessoas que exercitam os ministérios de ensinar, de suscitar a fé e de guiar e acompanhar o caminho de fé do povo de Deus?

Como diz a própria palavra “ministério”, elas são chamadas pelo Senhor a exercitarem um “serviço”, finalizado a promover a relação vital de cada um com o Pai, com o Mestre interior que é o Espírito, e com o Cristo, que é o verdadeiro caminho para o Pai. Nisto consiste toda a dignidade e a responsabilidade destes “ministros”. A partir da autenticidade desta delicada mediação, cada um precisa julgar seu próprio ministério na luz do Senhor, para verificar com humildade e sinceridade, se está de verdade servindo ao Senhor no seu povo, ou se por acaso não se está tornado pedra de tropeço para o mesmo.

Até a capacidade de servir o Senhor e o povo, como se convém, é graça. É a graça que a Igreja pede hoje, mais consciente do que nunca das próprias fragilidades: “Ó Deus de poder e misericórdia, que concedeis a vossos filhos e filhas a graça de vos servir como devem, fazei que corramos livremente ao encontro das vossas promessas”.


Fonte: Zenit